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Juninho Pernambucano

quinta-feira, 25 de março de 2010

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram ouvidos


No 4º dia de júri, casal Nardoni chora e nega ter assassinado Isabella.

Do G1, em São Paulo
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O quarto dia de julgamento de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, no Fórum de Santana, na Zona Norte, foi marcado pelo interrogatório dos réus. Os dois, acusados de matar a menina Isabella em março de 2008, responderam a perguntas do juiz Maurício Fossen, da Promotoria, da defesa e dos jurados nesta quinta-feira (25) e negaram ter assassinado a garota.

O depoimento de Alexandre à Promotoria começou por volta das 10h45 e foi encerrado às 16h25, com um intervalo para almoço. Anna Carolina Jatobá começou a depor em seguida e seu interrogatório foi encerrado às 20h45. Cinco minutos depois, o juiz Maurício Fossen suspendeu o julgamento - que será retomado na sexta.

O dia foi marcado pela afirmação de Alexandre de que o delegado responsável pelo caso propôs que ele assumisse a culpa pela morte da garota e pela admissão de Anna Jatobá em seu interrogatório que, durante depoimento à polícia na época da morte de Isabella, “aumentou” e “inventou” informações, como, por exemplo, mencionando que apanhava de seu pai.


A desistência da defesa do casal Nardoni em pedir uma acareação de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni com a mãe da menina, Ana Carolina Oliveira, também foi um dos destaques da quinta.

Isso se deu após a mãe de Isabella passar por uma avaliação médica. Tanto a defesa quanto a acusação permitiram que fosse feita uma consulta após um oficial de Justiça que acompanhava Ana Carolina na sala em que ela estava isolada desde segunda demonstrar preocupação com a saúde dela.

Foi autorizada, então, uma avaliação. O psiquiatra do Tribunal de Justiça apresentou ao juiz um laudo em que dizia que a mãe de Isabella estava “muito abalada, com estado agudo de estresse”. A defesa entendeu a situação e dispensou a presença dela no plenário, liberando-a da acareação.
 
Alexandre Nardoni 

  • Aspas
    Eu não vi ninguém de preto, não vi ninguém armado, não saí e tranquei a porta do apartamento, como divulgado pela imprensa"
O quarto dia do julgamento começou por volta das 10h45. Ele entrou no plenário vestindo uma camisa verde listrada, uma calça jeans e tênis preto. Já Anna usava camisa azul, calça jeans e uma sandália plástica.

Alexandre afirmou que o delegado Calixto Calil Filho propôs que ele assumisse a culpa pela morte da garota. Disse ainda que foi “humilhado” na delegacia durante as investigações da morte dela. O pai de Isabella chorou três vezes e negou o crime. O delegado não quis falar com a reportagem sobre a acusação.

A defesa do casal chegou a afirmar que uma terceira pessoa tinha entrado no apartamento e jogado a menina pela janela. "Eu não vi ninguém de preto, não vi ninguém armado, não saí e tranquei a porta do apartamento, como divulgado pela imprensa", disse o réu. 

Questionado pela assistente de acusação, Cristina Christo, se a madrasta de Isabella era ciumenta, Alexandre afirmou que isso “é normal em casais que se gostam”. “Tanto a minha esposa atual como a mãe da minha filha tinham ciúmes, como eu tinha ciúmes delas”, disse. Ele voltou a afirmar que Jatobá “fala alto” e o xingou “uma vez ou outra” durante discussões. “Mas não desse jeito, na gritaria”, completou.

Ele ainda afirmou que seu pai, Antonio Nardoni, está “sendo seguido o tempo todo”. “Tenho medo de retaliações a mim, minha esposa e meus filhos”, afirmou, fazendo referência à polícia. Segundo ele, a caixa de correio de um dos advogados de defesa do casal, Ricardo Martins, foi “explodida” e o defensor também recebeu cartas com ameaças. Ele atribuiu todas essas suspeitas a policiais que trabalham na delegacia onde o caso foi investigado.

Após um intervalo – que durou das 13h34 ate as 15h15 –, o depoimento de Alexandre foi retomado. Depois das perguntas feitas pela defesa, o juiz Maurício Fossen permitiu que os jurados fizessem perguntas a Alexandre. Das três perguntas feitas, uma delas foi indeferida pelo juiz, por considerá-la pessoal demais. As outras duas foram consideradas pertinentes e, repassadas ao réu, que as respondeu.

O depoimento terminou por volta das 16h25. Em seguida, Anna Jatobá começou a ser ouvida pela promotoria.

Anna Jatobá 

  • Aspas
    Queria deixar uma coisa bem clara: não tinha fralda nenhuma no carro. A bolsa dos meninos estava no porta-malas do carro"
Mais nervosa do que Alexandre, Anna Jatobá já entrou chorando no plenário. Ela chegou a ser advertida pelo juiz Maurício Fossen para que falasse mais devagar. Bastante emocionada durante o seu depoimento, a madrasta de Isabella continuou chorando em vários momentos diante do júri.

Para várias perguntas feitas a ela pela acusação, Jatobá repetiu uma resposta padrão: “Não me recordo”.

Anna Jatobá se confundiu com relação ao tempo que o casal ficou aguardando para sair do carro na garagem do edifício na noite em que Isabella morreu.

Questionada pelo promotor Francisco Cembranelli sobre o fato de não ter mencionado em seu primeiro depoimento à polícia que havia perdido a chave do apartamento, ela afirmou que não falou sobre isso porque estava nervosa e porque “esqueceu”. 

Anna Jatobá diz ter sentido falta de um laptop no dia seguinte à morte da enteada


Por diversas vezes, o promotor apontou contradições entre o primeiro e o segundo depoimentos dados por ela à polícia na época da morte de Isabella.
Anna Jatobá também afirmou que não é uma pessoa violenta. “Eu nunca bati em ninguém. Nunca fui violenta.” Ela contou que antes de o filho mais velho nascer, ela e Alexandre brigavam muito. “Depois de ter meu filho, amadureci”, contou.

A madrasta de Isabella levantou dúvidas sobre a conduta dos policiais durante a perícia realizada em sua casa após a morte da garota. Anna Jatobá disse ter sentido falta de um laptop no dia seguinte à morte da enteada. O desaparecimento, disse ela, foi notado após a perícia realizada no apartamento onde morava com o marido, Alexandre, e os dois filhos. 

Foto: Leonardo Aragão/G1

Ilustração do depoimento de Anna Carolina Jatobá feita pelo infografista Leonardo Aragão, do G1, na sala de julgamento. No momento, ela falava com o juiz. Ele trajava calça e blusa roxa brilhante (Foto: Leonardo Aragão/G1)

Ela se referiu à mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, como “Carol”. Mas também afirmou que a mãe da menina vivia a “infernizando”. Segundo ela, Ana Carolina Oliveira mandava mensagens para o marido, Alexandre Nardoni, que acabava mostrando para a mulher. A madrasta de Isabella acrescentou que a relação mantida com Ana Carolina Oliveira era basicamente via MSN e e-mail.

Ela negou que houvesse uma fralda no carro do casal. “Queria deixar uma coisa bem clara: não tinha fralda nenhuma no carro. A bolsa dos meninos estava no porta-malas do carro", afirmou.

Questionada sobre o fato de não ter imediatamente ligado para a polícia, deu resposta similar à de Alexandre. “É de praxe tudo o que acontece eu e o Alexandre ligarmos para nossos pais. Na hora do desespero, a única coisa que pensamos foi ligar para nossos pais”, disse. E completou: “Quando a gente desceu, disseram que já tinham chamado o resgate”.

Segundo ela, “estava todo mundo nervoso”, “gritando ao mesmo tempo”. Anna Jatobá afirmou ainda que jamais culpou Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella, pela morte, como esta afirmou. “Eu falei para ela que estava gritando porque estava preocupada com a vida da filha dela”, disse.

Antes de encerrar seu interrogatório, Anna Carolina Jatobá disse que até hoje não sabe o que ocorreu no dia da morte de Isabella. “É um mistério para o mundo inteiro e para mim também. Eu me pergunto todos os dias o que aconteceu”, afirmou a madrasta da menina, desatando a chorar logo depois.

Tensão


  • Aspas
    Tanto a minha esposa atual como a mãe da minha filha tinham ciúmes, como eu tinha ciúmes delas "
A tensão foi aparente neste quarto dia de julgamento e ficou clara entre o promotor Francisco Cembranelli e o advogado de defesa, Roberto Podval. O juiz Maurício Fossen teve de intervir para interromper uma discussão entre eles.

A discussão ocorreu porque a cada manifestação de Cembranelli, Podval insistia em ouvir do promotor o número da folha do processo a que ele se referia. Em determinado momento, Cembranelli se irritou com a cobrança e iniciou-se uma discussão, interrompida com uma advertência do juiz à Promotoria e à defesa.

Nardoni também se irritou com o promotor. Questionado, ele respondeu ao promotor que sempre usou óculos e provocou: “O senhor não sabe tudo da minha vida? Sem os óculos meus olhos ficam irritados”, disse.

Após a resposta de Nardoni, o promotor afirmou que o choro do pai de Isabella “não tem lágrimas”. O juiz Maurício Fossen mandou que os jurados não considerassem o comentário do promotor.

Após a sessão ser interrompida na noite desta quinta, o advogado de defesa do casal, Roberto Podval, disse, em entrevista, que os réus têm uma chance pequena de absolvição. “Quando eu assumi a defesa, eu disse a eles: ‘Vão lá (no julgamento) e digam a verdade, toda a verdade. Mentindo, eu não ganho. Dizendo a verdade, eu tenho uma mínima chance de vitória. Se tiver chance, é pequena”, afirmou. “Eu entrei em um júri perdido, com a defesa destroçada e com a opinião pública querendo me bater.”

Revoltado com os gritos do público que aguardava em frente ao fórum de Santana à noite, Podval disse “ter pena” das pessoas que hoje gritam justiça, porque “amanhã estarão batendo na porta de um advogado pedindo para defendê-las da fúria do estado”.

Já o promotor Francisco Cembranelli preferiu não conceder entrevista após o término da sessão.

O julgamento do casal Nardoni será retomado nesta sexta (26) com debates da defesa e acusação. A expectativa é que o resultado saia até o final da sessão.